Descompasso

Dentro do espaço de tempo
Da dor que sinto no peito
Espio o pensamento roto
Convertido em água
E que me verte pelos dedos

Transfiguro em sonho a realidade triste
E em vida o devaneio morto
Permaneço imóvel
Absorta a um rio que corre em direção oposta ao seu leito

Somos prisioneiros de uma felicidade moribunda
Fétida, como o cheiro de um cadáver que acaba de ser enterrado
Todo o amor de outrora
Partiu-se como um vaso que se estilhaça sem reparo

Muda teu jeito de espiar o mundo
Aprende com a natureza a coisa única
Que é o nascer do sol
Para todos, acima dos olhos cegos
Existe o horizonte

Sorvete

No dia que a gente tava tomando sorvete num lugar feito pra se tomar sorvete, descobri o quanto não pertencemos. E olha que a gente tava se esforçando. Você tentando achar sentido ao ver uma criança sendo criança na sua frente. Eu desolada pelo fato de olhar a mesma criança e lembrar que meu instinto materno havia saído pra comprar cigarro e nunca mais voltou. (Acho que não te confessei isso, mas no fundo no fundo eu até queria ser mãe.) Ficamos ali, os dois sentados em um banco de plástico colorido evitando a luz irritante e branca que compunha o ambiente homogeneizado e enfiando na boca um do outro um pouco da normalidade que nos faltava. O bom é que no seu caso, você já se deu conta disso. E não se esforça pra ser diferente. Ou pra fazer parte. Eu, não que me esforce pra nada, mas vivo num limbo intermitente entre a mesmice de comprar pão todos os dias e a de ser. Ser o potencial do Homem. A “vontade de potência” da minha própria vida. Não ser o destino que escolhi errado, as pessoas enviesadas, a certa falta de amor próprio. Existe em mim uma vontade eminente de solidão. Um desajuste inquieto que nunca voltará a ser o que nunca foi. Minha liberdade aniquilada não pertence só a mim, mas a todos que me cercam e que prendo aos meus braços infantis. O embate matinal entre abrir os olhos ou me mortificar na cama vazia é crescente e dilacera de tanta dor… Não sei se conseguirei seguir assim, nesse disfarçamento que me faz estranha e ao mesmo tempo tão comum. Queria poder superar o meu próprio tédio e transgredir todos os meus falsos planos idiotamente mecanicistas. Como seria infeliz! Buscar a felicidade na infelicidade. A contradição dos conscientes. Justificar a existência por exatidão certamente é um atributo que não me pertence. Tenho medo do que me vem aqui dentro. Temo a verdade. Suspiro três vezes repetindo um mantra decorado na aula de yôga que nunca fiz e engulo outra colherada de sorvete. Você olha pra mim e sorri. Gosto quando você diz com os olhos o que já sei. Saímos dali e jamais nos encontramos.

Descuido

E se… Quase. Então, não foi. Tudo podia ter sido tão diferente. Por que você me esqueceu? Se você soubesse o quanto um convite desses significa pra mim. Juro que dei muito valor. Talvez seja modéstia minha. Ou certa falta de auto-estima. A verdade é que fiquei feliz. Durou pouco, eu sei, mas foi bom. Fiquei até me imaginando um pouco mais compromissada, tendo motivos reais pra levantar da cama. Foi breve. Como o sorriso que costumo dar pra tirar uma foto qualquer. Diga xissss, eu digo talvez. Sempre fui assim. Sempre. Desde pequenina custava a aceitar todo e qualquer episódio tristonho. Sonhava com algo completamente irreal, só pra poder disfarçar as lágrimas que escorriam pelas minhas bochechas infantis. Tudo bem, vai passar. Tudo passa. Tempo. Nossa, que discurso chato. Boring, como dizem por aqui. Só o tempo vai dizer, tudo passa, nada como um dia após o outro, tudo que vai, volta, pelo amor de deus. Que mesmice. Pois sou a transfiguração da mesmice, do meio termo, do desperdício de um talento invisível. Álvares de Azevedo, me perdoe, mas te troquei pelo Instagram. Muito mais deprimente. Já esqueci quase tudo o que li por descuido. Se voltasse, provavelmente morreria de fome. Mas bem menos idiota.

Todo egoísta tem pressa

9:23 da manhã. E lá estava ele, como naquela famosa música do Skank: indefectível. Tênis branco, calça jeans azul escura, camiseta preta, casaco de brim verde, óculos de sol barato que cobria as bochechas graúdas e bigode fino que não lhe atribuía nenhum traço interessante de personalidade. Era comum, pensou ela. Pior. Era comum e neurótico. Passava ao seu lado cortando o vento com seus passos apressados pra pegar o ferry que mal havia apontado no horizonte. Todos os santos dias, de inverno, primavera, verão e outono, lá estava ele, primeiro da fila do transporte público de primeiro mundo. Foi essa sua mania que chamou a atenção dela. Gostava de reconhecer pessoas com um traço de psicopatia quase imperceptível. Identificava-se. Observava as excentricidades daquele homem estranhamente irrelevante. Sua vontade era de olhar pra cara dele e gritar no seu ouvido de novaiorquino moderninho que aquela pressa toda não o levaria a lugar algum. E o chamaria de egoísta pelos 20 minutos em que estariam, os dois, navegando calmamente pelo East River. Todo egoísta tem pressa. Tá sempre correndo, na frente de tudo e todos, tentando alcançar algo que nem sabe direito o que é. Aposto que esse daí é do tipo que não consegue apreciar nem o caminho de casa pro trabalho. Julgava o coitado como se o conhecesse há anos. Olhava pra ele com uma gana de vingança e uma raiva de algo que ele nem havia feito. Pobre homem do bigode sem graça. Gritava pra dentro: por que diabos esse bigode, meu deus? Por quê? E a pressa? E o egoísmo? Pra que isso tudo? Sua neurose, silenciosa, tomava-a por alguns minutos. Respirava profundamente e lembrava da sua pressa também. Sua vida urgia ligeireza. 10 dias. Esse era o prazo que ele, seu amor afobado, havia dado pra que resolvessem o que não havia solução. E sentavam-se semanalmente num sofá cinza cheio de almofadas amarelas displicentemente jogadas ao lado um do outro pra caso quisessem sufocar a si mesmos. 5 palmos de distância era o quanto precisavam pra se odiarem por exatos 60 minutos. 10 dias, almofadas amarelas, 5 palmos e 60 minutos. Egoísta, bigode e pressa. Amor sem solução com hora pra partir. 9:23. E ía andando, tênis branco, calça jeans azul escura, camiseta preta…

Afeto

Queria te pedir perdão por você não ter nascido. Perdão, por eu deixar o tempo passar por entre o vazio egoísta e senil das minhas tubas uterinas. Perdão, por nunca ter tido a coragem de deixar um único espermatozoide, dentre os milhões que já devem ter se esgueirado pelas minhas entranhas, ter fecundado o óvulo solitário que carregava em uma das minhas trompas de falópio. Perdão, por ter sido sempre tão responsável e ter tomado a pílula do dia seguinte após aquela noite de bebedeira em que transei loucamente com seu possível futuro pai. Perdão, pelo instinto materno nunca ter sussurrado ao meu ouvido e me seduzido dizendo que estava na hora de deixar pra lá toda essa minha mania de filosofar demais sobre o sentido de parir uma nova pessoa num mundo nem tão legal assim. Eu queria te pedir perdão por ter ouvido demais as lamentações amarguradas de todas as minha amigas mães de primeira viagem descabeladas e com olheiras de urso panda dizendo “sua vida nunca mais será a mesma”, enquanto puxam o sutiã bege pro lado e mostram o bico do peito rachado pela sucção dos lábios pequenos e delicados de seus filhos. Perdão, por não poder ver minha barriga crescer desproporcionalmente e mesmo assim me achar a mulher mais foda de toda a face da terra. Perdão, por não sentir sua mão mexer dentro de mim, procurando abrigo e espaço na bolsa amniótica prestes a romper. Perdão, por não perceber sua cabecinha com a moleira ainda aberta machucar carinhosamente minhas costelas e me fazer acordar a cada cinco minutos pra virar de lado na cama agora já tão pequena. Perdão, por não sentir contrações animalescas que dizem iguais a quando seu corpo se parte ao meio e que te fazem urrar como um lobo no cio. Perdão, por não abrir as pernas, perder a vergonha da nudez diante de uma plateia ansiosa e gritar “push push push” em um quarto azul de hospital virado pro Central Park. Perdão, por não poder amar o maior amor de todos e não ter a sensação de alívio ao ouvir seu primeiro choro e ver sua carinha de joelho sendo levada pro berçário cheio de sonhos recém-nascidos. Perdão, pelas não fotos no Instagram, pelo não blog sobre alimentação saudável, pelos não vídeos mostrando seus primeiros dentes, suas caretas de nojo ao comer minhas papinhas sem sal, ou seus passinhos trôpegos e cheios de atitude. Perdão, por não encher meu Facebook com suas risadas gostosas e deixar todos meus amigos de saco cheio achando que, sim, eu havia trocado todas as noites embriagadas em bares cheios de gente vazia por um monte de fraldas recheadas de merda. Perdão, por nunca saber o que é ter meu coração fora do peito e andando por esse vasto e pobre universo. Perdão.

Pêndulo

Eu piorei. Pois é, piorei. Mas pelo menos tenho a decência de assumir isso. E o exercício de escrever no papel o sentimento que envenena minha serenidade no meio de uma tarde calma de inverno nem adianta muita coisa, porque não tenho cura. E isso cega e machuca. “Quero conversar sério com você.” Como se a gente fizesse parte de um circo e risse o tempo todo. Pois é, será que posso colocar a culpa de ser assim em você? Pai. Seria muito mais fácil pra mim. Por que sou assim? Sou assim porque você não foi padrão. Aquela foto de família cheia de farofa na boca na frente da mesa de Natal nunca aconteceu. E daí? Daí que tinha que acontecer, porque esse mundinho infeliz nada mais é do que um punhado de fotos natalinas tiradas pra massacrar desavisados. Pois bem, aqui estou eu, de punhos fechados e coração aberto assumindo que não vou melhorar. Talvez até faça a hipnose recomendada pela minha médica. Ela é sensata, vai ver funciona. Do mesmo jeito que você acha que é. Sensato. Visceral só é adjetivo pra mim. Pra minha dor nas tripas, pro que sou. E, desculpa, mas se tiver que ser sensata, pode me matar agora, porque taí uma coisa que não nasceu comigo. Mas vai que dá certo, vai ver vou doer menos e vou sofrer como os outros mortais, por motivos óbvios. Vai ver meu inferninho de dentro esfria e me faz mocinha de idade adulta. Vai ver. Olhos fixos no pêndulo, esqueça o passado, respire fundo, controle-se. Depois mande tudo à merda.

Virgem

Quando o amor perde o cabaço. Acabou. Amor tem que ser virgem, sonhar, sorrir de canto, meio envergonhado, acreditando que o mundo é bom. Aquele feeling inocente, a sensação de uma criança de dez anos que tem certa noção do que é tesão, mas não traz maldade. Amor e cabaço precisam de mãos dadas. Quando o amor perde a castidade. Desfaz-se. É quando você se olha no espelho no dia seguinte e sente que algo que estava ali foi embora. E nunca mais voltará. Nunca mais. E perde a ingenuidade. Amor descabaçado. O banho morno demorado depois do sexo febril. E virou adulto. O amor. Tomando pílula, usando camisinha, indo ao ginecologista. É assim que é. E é assim que acontece quando se cresce. O amor endurece, enruga, cria pé de galinha. Depois disso não se tem mais paciência pra essa coisa infantil. E não sabia se iria conseguir amar desse jeito, porque o seu amor ainda usava fraldas. Não. Não sabia se conseguiria ver o seu não primeiro amor ser tomado assim, violentamente. Não teve nem um jantar, um vinhozinho, uma conversa mole ao pé do ouvido, não. Foi tudo assim na surdina da noite, rápido, como o movimento frenético de quadris adolescentes que não sabem a hora de parar. E continuavam horas a fio, metendo. Enfiando um no coração do outro a estaca rígida desse amor de agora duro.